Dia 66 - Para meu pai


Meu pai era um homem apaixonado, pelas mulheres, pela vida, por carros, por músicas que falavam de amor, por bebês...mas meu pai não era um artista, nem filósofo e nem tinha a pretensão de ser um exemplo...ele tinha orgulho, muito orgulho de aparentar ser um homem forte, implacável em determinadas situações e de um coração enorme. Odiava ver pessoas passando necessidade, sofrendo, pedindo, não gostava que maltratassem animais, adorava cachorros, sempre tinha um vira-lata para cuidar.


Meu pai era mecânico, um excelente mecânico e eu ficava encantada com os carros, com seu conhecimento sobre eles e em como as pessoas confiavam em sua opinião.


Ele nunca me deixava ficar em sua oficina, dizia que não era lugar para meninas, mas eu não me importava, sempre que podia passava lá para ver aqueles carros que eu achava tão lindos


Meu pai teve muitas mulheres, sou fruto do seu segundo casamento oficial, filha única deste romance, mas ao todo somos nove filhos, dois homens e sete mulheres, frutos de vários casamentos, várias paixões.


Lembro-me que aos domingos, enquanto ainda era casado com minha mãe, sempre me acordava com mordidas e suas músicas preferidas, até hoje as escuto para me lembrar dele.


Mas também lembro de como sua paixão por mulheres acabou com o casamento com minha mãe, de que como seu despreendimento por dinheiro o levou a ter dificuldades financeiras graves e de como nosso orgulho nos afastou.


Eu queria provar para ele que eu não iria cometer seus erros, mas não me dava conta de como estava cada vez mais parecida com ele. Meu orgulho e arrogância nos afastou em seus últimos dias, mas eu não me dava conta porque achava que ele viveria para sempre, achava que ele estaria ali para ver eu me tornar uma mulher forte, decidida e apaixonada, assim como ele.


Foi em um domingo que eu me dei conta de que eu não iria a lugar nenhum e que não diria a meu pai o quanto o amava e nunca ouviria dele que sentia orgulho da mulher que me tornara.


Sempre sonhei em ter um carro como o dele, adorava o "ronco barulhento do seu carro" - assim como diz a música de Roberto Carlos.


Essa noite sonhei com um Camaro, também sou fã do Maverick, meu pai teve um desse, mas minha lembraça é de um Dodge Dart preto, quatro portas, com seu motor roncando e de um homem alto, de botas, com costeletas grandes e com muita postura saindo dele.


Lembro-me de seu sorriso e de como ele iluminava meus dias, lembro de dançar com ele, lembro de suas piadas e das manhãs que me acordava com música, lembro das viagens em família, lembro ele dizendo:

- Como uma cabeçinha tão pequena pode pensar tantas coisas?

- Quando crescer vai entender - referia-se as brigas com minha mãe.


Lembro-me de como me ensinou a ter compaixão, de como era generoso.


Meu pai tinha muitos defeitos, teve muitas mulheres, muitos filhos e muitos desafetos, tudo porque viveu com paixão.


Mas acima de tudo, meu pai me deu a oportunidade de aprender com seus erros e as lembranças de seus acertos, foi seu amor que fecundou minha mãe, foi seu amor que me fez parte do que sou, e é por ele que escrevo hoje, com amor e gratidão.


Feliz dia dos pais, onde quer que esteja. Não importa o que fez e como viveu, fez o que achava certo, viveu, errou e acertou como todos nós.


Você estava certo pai, hoje eu entendo você! Um grande beijo. Obrigada!


"Não corra papai, não corra
Estou esperando você
Não corra papai não corra
Não quero nunca lhe perder..."

Comentários

mueja disse…
Dos pais sempre se aprende aínda que sexa para non comenter os mesmos erros. Gostei deste post tan intimo. Como todo o blog
Un beijo
Henrique disse…
Oi, você sabe quem canta essa música do "não corra, papai" ??
Me lembro que meu primo tinha um lp com essa música, e estou procurando ela, mas só você no google aparece com ela...
se souber o nome de quem canta ficarei grato. Abraços