Dia 65 - Vamos falar de vida...


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Chego em casa, já se passaram das 20:00h, estou cansada e com fome, sinto cheiro de comida, deve ser minha mãe preparando o jantar - penso.
- Oi mãe! Tudo bem? Como foi seu dia? - digo.
- Bem minha filha, precisamos conversar sobre umas coisas aqui de casa - eu não respondo, sigo para o banheiro, estou louca para tomar um banho e descansar.

Enquanto estou no banheiro minha mãe continua falando, mas eu só escuto balbucio, depois me concentro no banho e grito:
- Não tô ouvindo nada mãe?! Depois você me fala!
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O tempo passa...
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Uma noite chego em casa do trabalho e encontro minha mãe, doente e cansada, deitada em sua cama. Chamo meus irmãos e ficamos todos ao seu redor, lhe dando atenção e buscando uma melhor forma de confortá-la. De repente, o que era gripe se transforma em sufoco, e o sufoco em palidez, e o pálido em roxo, e minha mãe perde os sentidos...por um segundo penso que:
- Já não faz mais sentido ignorar suas palavras, pois tudo que eu quero é escutar sua voz.
- Já não faz mais sentido nossas brigas, na verdade, trocaria aquele momento por qualquer briga, desde que no lugar da palidez eu visse rubor.
- Já não estou tão cansada, trocaria de lugar com ela...
Todos se agitam, seguimos para o hospital, mas...


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Hoje fui tomar banho - disse uma amiga - e lembrei de quando minha mãe falava comigo da cozinha e eu não escutava.
Você acredita que eu tomei banho hoje e ouvia ela conversar comigo? - finalizou recordando e seus olhos se encheram de lágrimas.


(Ponto)


Não, não estou falando de morte, falei de vida e de todo o tempo que a ela não damos atenção.
De todo carinho que postergamos para depois, amanhã, no fim de semana, na outra semana, outro dia, mês que vem, no natal, no seu aniversário, etc., e que não dedicamos a quem amamos.
Do tempo perdido com a arrogância achando que os outros podem esperar, que os outros podem entender, que eu não vou fazer, eu não vou dar o primeiro passo, eu não peço desculpas, tem que ser no meu tempo, do meu jeito, eu sou assim...
(Ponto)


E assim...
O tempo passa...
E vivemos os dias como se fossem aquelas palavras balbuciadas de nossa mãe, que não ouvimos debaixo do chuveiro...
Não é de morte que eu falo...é da falta de vida dentro de nós.
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Minha amiga sabe do que eu estou falando. Sinto muito...Beijos!!

Comentários

Anônimo disse…
Lembro-me bem do dia em que morri...era 15:37 e tinha acabado de ler o corvo, conto do livro de Miguel Torga - "os Bichos"...não que fosse novidade mas naquele momento, naquele preciso e exacto momento eu tomei consciência do que já sabia mas punha para trás para conseguir continuar a viver. Eu descobrira que estava morto, isto é, que o meu fim, fizesse o que eu fizesse, era morrer. è algo devastador...pois vês tudop de forma diferente...Quando já estas morto ganhas uma liberdade...como se não tivesses nada a perder e as tuas prioridades mudam...assim, procuro dar valor ao tempo...procuro que ele seja gasto com as pessoas...
seu texto é uma interpelação incrivel e simples como a própria vida...
Um prazer visitá-la
um Beijo
Vicente
mueja disse…
Falar de vida é mellor que falar de morte. Hai acontecementos inevitables polos que todos temos que pasar e compre facelo da forma máis natural posible. Con todo hai que vivir ao dia e coidar os pequenos detalles sempre.
Un beijo