Dia 115 - De tudo, todos tem um pouco

Por vezes,
Sou mais velha do que os anos que posso contar.

Por vezes,
Sou mais nova do que o corpo que me serve de moradia.

Por vezes,
Me encontro e me perco no mesmo instante e em lugares diferentes.

Será essa a condição de quem contém em si muitas com o mesmo nome?

Era sábado, rock tocando, lugar legal, meia luz, jovens suados, cantando e dançando, como em transe num dos cômodos do estabelecimento.

Eu, sentada, observava tudo com certo conforto, por estar num lugar onde, pelo menos, uma de mim se satisfazia no 'grito' do vocalista da banda.

Um prazer tomou conta de mim...

Mas observava tudo num misto de admiração e indiferença.

Sentia-me além daquele momento e completamente nele ao mesmo tempo.

Noutro cômodo homens e mulheres dançavam em êxtase pela bebida e a música. Eram poucos, mas se faziam muitos.

Um homem veio me cumprimentar, já apresentava em sua moradia (corpo) as marcas dos anos, mãos secas com dedos finos e dizia em despedida:
- Foi um prazer estar aqui com você!

Imediatamente pensei:
- E daí?! - não o conhecia. Mas logo refleti sobre o singelo gesto e percebi que ele, muito mais do que eu, foi sincero e espontâneo. Então, agradeci e sorri.

Eu...

Presa em minha casa,

Olhando tudo pela janela,

Como se do mundo fosse somente espectadora,

Da minha própria arrogância.

Egoísta tirava de quem, ao contrário de mim, se entregava,

A vivacidade que me faltava.

Eu...

Mulher de 30

Quem me olhasse me daria menos,

Menos idade e mais valor, do que me dou diariamente.

Falo de reflexos e de tempo, falo de amor e de entrega.

Falo em versos e pensamentos

E por um momento, não perdi as rédeas.

Coloquei-me num cabresto e me manobro

De acordo com meus medos.

Ai de mim! - pensou a outra que não liberto.

E a guitarra fazia dos seus grunhidos os meus gritos.

A bateria socava-me o peito, numa tentativa de me enraivecer.

O som queria sair de dentro de mim, mas,

Eu nada fazia...

Só via e ouvia,

Os risos, os gritos, as vozes...
E os gemidos de várias de mim...

Presas em meu ser.

Era cedo...

Quando a música acabou e voltei ao meu mundo 'normal',

Há quem afirme que normal é ser louco, se é assim então,

Há uma coisa que ainda me salva a insanidade...

Meus pensamentos soltos.

Que não comando,

Fazendo de si sua própria vontade, coragem.

Enfim...Liberdade! - todas gritam em mim.

Comentários

elvira carvalho disse…
Amiga, tem um prémio especial no Sexta-feira. Tão especial que não nomeei blogs, mas pessoas.
Um abraço

À noite venho ler o seu post e comentar.