Terça-feira, Dezembro 30, 2008

Dia 168 - Meu Ano Novo

Passei um mês pensando na mensagem de Ano Novo...resultado? São 20:55 do dia 30/12/08, penúltimo dia de 2008 e ainda não tenho essa mensagem...

Cheguei a conclusão de que tenho de ir embora, vou pegar o ônibus, chegarei em casa, meu gato me espera, no sofá apenas lençois, os quartos com as portas fechadas, a árvore de Natal, que minha mãe demorou três horas para montar, apagada.

Chego a conclusão de que não quero escrever uma mensagem agora, quero estar errada.

Quero pensar que a casa não está vazia, que as portas não estão trancadas, que o gato corre feliz com suas bolinhas, que na geladeira tem mais do que água...

Quero pensar que sentado ao sofá estão todas as pessoas queridas, que a mesa conversam animadamente minha mãe, minha avó, minhas tias...

Que minhas afilhadas brincam e sorriem, que na janela está aquela pessoa especial que adora estar ao meu lado...

Sobre minha cama estão minhas amigas, conversando todos os assuntos, dos mais animados aos mais 'tricotados'...altos 'babados'...rsrs...

O som ligado, música animada, samba, rock, sertanejo...tem pra todos os gostos...

Eu entro pela porta, cansada, mas estão todos lá...me esperando chegar, o jantar não tarda...mamãe fez aquele feijão maravilhoso...

E todas as dificuldades perdem seu significado...porque estão todos lá...todos que convivi e convivo, as novas amizades que cultivei...

Não há escuridão, de luzes apagadas. Não há coração partido. Não há solidão. Nem meias palavras. Nem o Não. O Adeus inesperado. O silêncio forçado ou lágrimas sobre travesseiro encharcado, nem palavras mudas de um coração alado...

Chego a conclusão que, não há nada que eu possa desejar que já não tenha. Não há casa vazia que se mantenha em mim, por mais vazia que possa estar a meus olhos.

Não há amor perdido, ele nunca me abandonou, sempre esteve e estará comigo.

Não há sorriso que não me lembre, alegria que não me sustente...

E amanhã quando, finalmente, o Ano Novo romper a meia-noite, todos estarão comigo...

Os de além mar, os que já se foram, os que iram chegar, os que me presentearam com seu amor ou que me deixaram os amar...

A casa que hoje se apresenta só, nada significará...essa casa, não levo comigo...é apenas abrigo.

Mas a casa onde todos estão, a casa onde posso ver seus sorrisos, seus olhares, seus mares, seus beijos, seus abraços...nesta casa, o Ano Novo se cumprirá em todo seu esplendor, cheio de Amor...

Por tudo que representam para mim, por tudo que sou...por tudo que ainda viverei neste lugar!

Por isso a todos desejo Amor!

Deixe-o entrar! E que ele se cumpra em qualquer lugar...pois estará sempre contigo, onde quer que vá...a sua casa, o seu Ano Novo, é onde o seu Amor está!


Feliz Ano Novo!

Quarta-feira, Dezembro 17, 2008

Dia 167 - Meditação no presépio (Por Cecília Meireles)

Quando São Francisco de Assis inventou o primeiro presépio, e falou das coisas do céu numa gruta, dizem que, ao ajoelhar-se, desceu-lhe aos braços estendidos um Menino todo de luz. O Santo Poeta colocara ali apenas umas poucas imagens: as da Sagrada Família, a do irmão jumento e a do irmão boi. O áspero cenário de pedra tinha a nudez franca da pobreza, a rispidez dos desertos do mundo, o recorte bravio dos lugares de sofrimento. Aí, o Menino de luz pode descer, porque ele vinha para ensinar caminhos difíceis, e restituir às coisas naturais da terra o sentido da sua presença na ordem universal.

O amor humano é um perigoso jogo. Por amor, os homens foram construindo presépios ao longo do mundo, e já não lhes bastava a pedra desguarnecida: queriam recobri-la do ornamento da sua devoção. Trouxeram folhagens e flores, dispuseram frutos e pássaros, desceram o céu, num pálio de seda azul, colheram as estrelas, dos ramos que se alongam na noite. Caçaram a lua, no meio da sua viagem, e pescaram o sol, redondo peixe de nadadeiras flamejantes.

Não lhes bastaram, porém, ainda, esse convite e essa conquista, no reino dos adornos da natureza. Convocaram os habitantes do mundo para uma adoração geral. Trouxeram os pastores, que deviam ser os vizinhos mais próximos da feliz manjedoura; trouxeram os lavradores e os artífices, de acordo com as imaginárias relações da família do recém-nascido.

Mas era preciso não esquecer os Profetas, anunciadores do acontecimento, e das ruas da Bíblia os fizeram descer com suas barbas, seus cajados, suas visões e ainda cheios de voz.

Os Reis vieram por si, de olhos postos na Estrela; e como os Reis traziam os camelos; e os pastores, carneiros, também os Profetas arrastaram leões, e cabras sem defeito — e depois, em muita confusão, toda besta que remói, umas de unha fendida, outras não; e até os animais que caminham sobre o peito e os que têm muitos pés e ainda assim se arrastam pelo chão.

E, puxados uns pelos outros, vieram o cavalo e a mula, o cão e o elefante, o macaco, a hiena, o chacal e o leopardo, e o imundo crocodilo, com a cordilheira dos seus dentes, e a lagosta abominável, sem escama nem barbatana.

Foi talvez a lagosta que açulou os apetites, e os nobres italianos, com aquela pompa que o Renascimento lhes incutiu, trouxeram para os presépios a escamosa alcachofra e o labiado repolho, e cachos de uvas e salsichas, e o queijo e a rosca e o vinho — tudo que o amor ama e, por amor, quer repartir.

E os Profetas trouxeram as Sibilas, e as Sibilas as Cassandras e as Medéias e as Circes, e quem sabe até onde o humano mar se iria aproximando de onda em onda, nessa aglomeração sucessiva para adorar o Menino e ornamentar o Presépio. Homero traria seus argonautas; o rei Artur, seus paladinos; Marco Polo, seus mercadores, Gengis-Khan seus guerreiros — e o negro, o chim, o índio emplumado e o friorento esquimó se acomodariam todos sem dificuldade no recinto mágico presidido por um pobre Menino celestial.

E tão bem se sentiriam que, sem desejo de regresso, iriam buscar suas casas e suas montanhas, seus rios e seus moinhos, seus arados e seus fornos, suas embarcações e suas tendas, e ali se poriam a trabalhar, ao som de doces cânticos ali mesmo inventados, e ali bailariam, com gaitas e sanfonas, adufes e harpas, ocarinas e violas e tudo quanto, com metal, corda ou sopro, é capaz de produzir um som de feitura harmoniosa, comparável ao gorjeio das aves, ao suspiro das águas, ao adejar do vento e à voz humana quando quer ser mais que linguagem.

E o sol e a lua e as estrelas ainda pareceram apagados, para tão ambiciosa festa, e as mulheres e as moças puseram-se a dançar com círios acesos nas mãos, e tudo foi recamado de ouro em pó, e cada qual começou a escolher trajos mais cintilantes, de cetins mais lustrosos, com lavores mais ricos, e do mar e da terra se desentranharam todas as coisas que brilham e deslumbram, e não houve príncipe nem sacerdote nem mercador nem escravo que não gastasse os olhos e as pontas dos dedos, cosendo em seus estofos as gemas que os tornassem mais resplandecentes.

E nesse esplendor de fitas e rendas, de colares e anéis, com os animais de chifres dourados, de testa empenachada, de manto lavrado e guarnições de fina cinzelura, até se recordou que o Menino não podia estar ali despido como simples deus humanado — e teceram-lhe camisinhas e envolveram-no em brancas sedas, e para a tímida Virgem e o submisso carpinteiro trouxeram finas roupagens esmaltadas de cintos e fivelas, com barras de arabescos e densas pregas faustosas.

E as belas canções subiam como, nas hastes gladioladas, abrem os lírios verticalmente, de salto em salto.

E houve assim uma existência de amor, e alguém pensaria estar o mundo apaziguado, e a família terrena compreendida e satisfeita, trabalhando e cantando, bailando e dormindo tendo em redor de si a parede rústica do Presépio.

Mas, na verdade, a parede do Presépio deixara de existir. O que havia eram muitas paredes, de palácios e de mosteiros, de chácaras e de cozinhas de quartéis e de fábricas, de lojas e de manicômios.

Porque essa humanidade se arruinou e adoeceu; esqueceu-se que a oferenda não lhe pertencia, e estendeu a mão para a alcachofra e para a lagosta, para o cavalo do guerreiro e a coroa do suserano, e o que tocava cítara quis brandir espada, e o que varria o estábulo apoderou-se da cítara.

De modo que se chegou a ver o legionário romano, de agulha e dedal, bordando flores sobre cetim, e as dríades empunhando lanças, e os javalis sentados em cadeiras de ouro, abanados por leques de plumas.

Ninguém mais podia amar a sua oferta, mas a do seu vizinho; e já não amava com amor de dar, mas com amor de possuir. E não houve mais quem se despojasse, mas só quem apreendesse.

Notou-se que o sol e a lua e as estrelas não tinham mais sua substância própria: eram de ouro e de gemas, eram pintados e incrustados; não se moviam nem aqueciam mais.

Notou-se que os cantores tinham ficado melancólicos e a dança não se levantava em asas tênues: arrastava caudas fúnebres, patas desconfiadas, pontas de espadas surdas.

E aquilo que foi um Presépio era um mundo de contradições, sem equilíbrio nem sentido. Os Profetas eram alucinados — e as Sibilas, dementes; os Reis, uns conquistadores mesquinhos; os guerreiros, uns assassinos convictos.

Nuvens de seda e pó de danças toldaram a íntima, pequena cena de um nascimento sobrenatural. Tudo tinha ficado mais importante que o Menino chegado para ensinar o amor. Tudo tinha formado sucessivos planos, anteriores uns aos outros, sobrepostos uns aos outros, escondendo-se uns aos outros, num amontoado de riqueza, ambição, prepotência, vaidade, cobiça, rapina, mentira, traição e ódio.

E tudo isso foi desabando por si mesmo, porque estava armado sem fundamento; e viram-se os Profetas fugitivos, arrastando os animais santificados e os imundos; e as Sibilas recolhiam seus oráculos perdidos, e as Medéias e as Circes enrolaram seus velhos feitiços; e os que tinham vindo por engano choraram pelas palavras que tinham entendido; e os que tinham vindo por verdadeiro amor deixaram pender a cabeça, e foram empurrados na onda devastadora, porque o amor é distraído e desatento de si, sem agressão nem defesa, e fica sempre esmagado, no torvelinho dos atropelos.

Mas quando tudo ruir completamente, — porque sempre chegam novos forasteiros ao Presépio, e cada um se diz o único verídico, o mais sincero e o mais poderoso, o mais rico e o mais fiel — quando tudo ruir completamente, o Menino continuará na sua gruta, com a sua família humilde, o irmão boi e o irmão jumento, para recomeçarem a vida, na simplicidade humana das coisas naturais e universais.

E se outro São Francisco se ajoelhar na gruta rústica, o Menino virá todo em luz aos seus braços, porque só o Santo Poeta entendia dessa irmandade geral do céu e da terra, e da graça de todos os despojamentos, e da alegria de não precisar ter, pela contemplação de todos os enganos, e da leveza da vida em expressão absoluta.

(Rio de Janeiro, revista “Rio”, Dezembro de 1946)



DEIXO A TODOS QUE ME VISITAM ESTE MOMENTO DE REFLEXÃO...
DESEJO UM NATAL DE AMOR, DE PAZ, DE SOLIDARIEDADE, E PRINCIPALMENTE DE RENASCIMENTO EM NOSSOS CORAÇÕES...QUE ESTA DATA SE REPITA TODOS OS DIAS EM NOSSAS VIDAS E NÃO SOMENTE QUANDO ESTA É LEMBRADA OU COMEMORADA...

FELIZ NATAL!!

Segunda-feira, Dezembro 08, 2008

Dia 166 - Crueza

Somos espectadores numa terra de injustiça.
Achamos que ela (a Terra) é injusta, mas somos os causadores da sua ferida. E ela grita!
Somos os cegos, pensamos ser Reis...e aos Reis damos emprego e a Deus uma outra vez.
Somos espectadores de nossa própria encenação...hora cínicos, hora dissimulados, hora hipócritas...hora vítimas do nosso fardo, somos autores, mas queremos ser coitados...
Sentamos em círculo e pregamos a igualdade, mas queremos ser diferentes de todos da sociedade.
Ser igual não satisfaz!
Não vejo o abandonado.
Não vejo o descamisado.
Não vejo a senhora idosa que está do meu lado.
Não vejo a criança vendendo miúdos por um trocado.
Não vejo o soldado mal treinado.
Não vejo o pai de família desempregado.
Não vejo o roxo no rosto da dona que mora ao lado.
Não vejo o corpo da menina violado.
Não vejo o político corrupto que me devora e não é culpado.
Não vejo a hora...pois meu relógio está atrasado.
E a criança tem um sonho.
Um coitado sente frio.
Um médico se sente um aleijado, impotente diante de um pobre atormentado.
Um louco tem mais sanidade que um diplomado.
E um rico não passa de um pobre arrumado.
Mas, todo mundo quer ser bem arrumado!
E nos custa deixar rolar uma lágrima...
E nos custa tocar alguém...
Oh Deus! Estamos tão condicionados!
Parecemos cães treinados.
Não sabemos mais sentir.
E a lágrima que rola sobre minha face é fria e parida, chega a doer em sua saída...
E não sei mais tocar, não sei ver, não tenho paladar...ouvir nem pensar...preciso consumir....mostrar....
Serei eu mais respeitada se ninguém se aproximar?
Serei eu mais dona de mim se me fizer fria assim?
Não adianta embelezar...onde a beleza não está.
Não adianta dizer que sente muito, quando nada sente...nessas horas a educação me surpreende!
A empatia inexiste...num mundo onde o Eu ainda é ditador...
Então me calo, me cego, corto as mãos para não estendê-las, os pés para não me levantar...
Me faço de louca. Não me perguntem?!
Onde isso tudo vai parar?
"Eu" não estou aqui, nem estava lá.
Não foi "Eu".
"Eu" não "vivo" neste lugar.