Dia 187 - Adormecer

Deitada, em minha cama, no meu quarto a luz atravessa a janela num pequeno fio brilhante, assim, na horizontal, percebo-me frágil e entrego-me a pensamentos distantes. Presente e passado se confundem e o futuro é, ao mesmo tempo, o próximo segundo, ao adormecer, ou no despertar de um novo mundo que irei conhecer.

Meus ouvidos ainda desacostumados com o 'silêncio', talvez o gato miando ou o barulho baixo da TV. Por debaixo da porta também vejo entrando a luz que teima em me deixar desperta, quando tudo que eu quero é fechar os olhos e descansar.

Da janela do meu refúgio consigo ver a distância um grande mosteiro no alto de uma montanha, lá ele está imponente, reluzindo aos holofotes que, de propósito, estão lá para não nos deixar esquecê-lo. Abaixo daquele ponto branco e brilhante está a mata da montanha, adormecida e calada, penso que também somos assim, abaixo de tudo que construímos para reluzir, somos apenas uma mata adormecida, que muda com as estações mas que, na verdade, tenta apenas sobreviver.

Meus olhos querem se fechar mas eu insisto, gosto de pensar, sentir-me segura naquele lugar, talvez o único onde possa me encontrar e ao mesmo tempo me perder. A minha frente um morcego de olhos gigantes, amarelos, com cara de coitado, asas fechadas, um companheiro de pano engraçado com nome de gente, um presente de uma amiga que, até hoje, não compreende como posso gostar de algo tão estranho.

Eu também sou uma estranha, num duelo íntimo e infinito de Titãs. Eu, de cabelos loiros encaracolados mas que nada tenho de angelical, vivo a compartilhar minha condição com todos meus irmãos, ligados por uma divindade que me ensinaram a conhecer desde tenra idade. Eu, que acordo, me perfumo, me arrumo e sigo para minha rotina, bater o cartão da minha sina. Embora, numa contradição, seja feliz também nesta condição, uma mistura agridoce entre dor e prazer, reclamando do dia que começa e termina e mesmo assim feliz pelo conforto da rotina, ilusão de achar que posso saber o que vai acontecer.

É. Ainda estou ali, de barriga pra cima, as vezes de bruços, as vezes abraçando um travesseiro. O silêncio agora é mais perceptível, meus ouvidos pararam de zumbir, meus olhos estão prestes a escurecer, mas, como sempre, os pensamentos, estes nunca terminam. Quem sabe o que encontrarei a seguir? Não sinto medo. É uma ansiedade de estar livre, solta, mesmo que por um instante, de sentir a liberdade de nunca ser tarde demais, ou cedo, para fazer qualquer coisa. Pensam que dormir é um simples ato? É mais que uma necessidade, é uma passagem, que acreditamos ser de ida e volta, é um portal do humano para o ser, o único momento que a alma grita e brinda a liberdade enquanto espera os anos o corpo envelhecer.

O silêncio...

O que importa aqueles pensamentos? Adormeci...

Entorpecida, serena, numa respiração suave, provando uma gota da minha liberdade...até o próximo amanhecer.

Comentários

elvira carvalho disse…
Passei amiga. Fiquei a meditar neste texto. Com vontade de me sentar nesse quarto e ficar sonhando e olhando o mosteiro.
Um abraço e bom fim de semana
O Profeta disse…
Ao meu querer!
Dias noites, estações esquecidas
Inventei sonhos para sonhar
Lavei mágoas, dores perdidas

Uma árvore toca as águas da lagoa
O nevoeiro faz desenhos nas cumeeiras
Um Melro negro solta um pio ao acaso
A palavra quero-te diz-se de mil maneiras


Convido-te a ver a Cor da Claridade


Doce beijo
elvira carvalho disse…
Passei. Na ausência de novidades, deixo um abraço e votos de bom fim de semana.