Quinta-feira, Novembro 18, 2010

Dia 210 - A tal da Dona SIMPLICIDADE

“Lua lá no céu, 
Queijo pão de mel 

Na ponta do pincel, 

Mostra no papel aonde encontrar 

A tal da dona...” (SIMPLICIDADE)


A palavra correta da música é FELICIDADE, e o nome da música é “Dona Felicidade”, mas numa licença nada poética tomei a liberdade de trocar as palavras e acredito sinceramente que ambas estão ligadas diretamente, ou até podemos dizer em termos matemáticos que são inversamente proporcionais.

O simples se tornou fashion, sonho de consumo, e muitos se perguntam: Onde posso comprar isso? 

A aquisição é a palavra da vez até para o que não se compra.

Quando criança cantava essa música sem me dar conta da sua profundidade e confesso, que hoje, ao pensar nela me deparei com a grande surpresa de pensar em algo que a há muito não pensava, na tal da Dona Simplicidade. Foi simples...

Como todos os dias acordei cansada e com sono e resolvi retomar minhas leituras de ônibus, até para mudar o foco dos meus pensamentos que a cada dia estão mais e mais cozinhando meus miolos, o trajeto é chato e longo, 50% das pessoas são as mesmas pessoas de todos os dias, rezo sempre para a fila estar pequena e para que tenha um banco sobrando e eu possa me sentar, sem ter que lidar com o chacoalhar e esbarrões, enfim, abro o livro que peguei mil vezes para ler e nunca tive... disposição...

Primeira surpresa, estou gostando do livro, de retomar as leituras e de certa forma, de ter um prazer. Eis que entre esbarrões e chacoalhadas entra um senhor de idade avançada que não deveria estar no final do ônibus e sim sentadinho atrás ou ao lado do motorista no lugar que lhe é reservado por direito, mas, ele está ali diante de mim. Sentada de costas num banco especialmente desconfortável, pois fico de frente para o outro banco e sinto joelhos me cutucando o tempo todo, eis que o senhorzinho (não é ironia, é de forma carinhosa que o chamo assim), se coloca a minha frente entre meus joelhos e os joelhos de quem estava a minha frente, num lugar improvável ele tem também uma reação improvável (isso para nossos dias, pois sua reação é perfeitamente normal e educada).

Me disponho a levantar para dar lugar ao moço, mas ele não aceita, gentilmente me diz que não gosta de sentar de costas e que também logo ali (isso muito mais de 5 ou 6Km) o ônibus vai estar vazio e ele se sentará. Perguntou-me se podia ficar ali, entre joelhos, esbarrões e chacoalhadas, eu disse que sim surpresa. Uma mulher em pé ao meu lado disse: O senhor poderia ter entrado pela frente, é seu direito.
E ele com seu sorriso simpaticamente sem dentes disse:
- Verdade, mas estou bem aqui, vou saltar logo ali, tem problema não.

Sempre li narrativas de cheiro de pessoas, alguns dizem que idosos tem cheiro amadeirado. Confesso que não sei, mas ele tinha um cheiro bom, cheirava a limpeza e gente boa.

Continuei lendo quando ele me entregou um papelzinho onde tinha uma mensagem de sua igreja. Algumas pessoas gostam de entregar coisas assim, sempre leio. Ele sorrindo entregou um a cada pessoa que estava a seu lado, ainda entre joelhos ele sorria e dizia: Vai na minha igreja, é em Jardim Colorado, de onde você é? – perguntou à moça que estava ao meu lado – De Jardim Asteca. – ao que ele respondeu: – Pertinho.
- De onde você é? - perguntou à senhora que estava em pé.
- De Vila Nova.
Ele diz:
- Do lado  - e sorriu.
Olhou para mim e perguntou:
- E você?
- Brisamar – respondi.
E ele:
- Nossa, pertinho da minha igreja, se descer o morro é só ir reto.

Ainda ali entre meus joelhos e do rapaz mal educado, de vinte e poucos anos que nem se deu ao trabalho de levantar para o senhor, ele sorria, feliz pelo cantinho proporcionado, educado e gentil e entusiasmado pois era logo ali que ele ia.
Seguia o ônibus pelas vias, quando no determinado tempo estimado pelo senhor o coletivo foi ficando mais folgado. E um lugar que não era de costas ficou disponível, bem ao lado do rapaz mal educado.

Eu rapidamente disse, preocupada que ele já estivesse cansado.
- Senhor pode se sentar ali – apontei.
Ao que ele respondeu:
- Sim eu sei, sou esperto – sorrindo.

E sorrindo sentou (seu sorriso me dizia: Não sou tapado!)

Mas ele não pensou isso não. Quem pensou foi minha mente de gente descontente. Ele apenas sentou gentilmente. Olhou pela janela, bateu três palmas como uma criança contente e seu olhar se fixou para fora. Te juro que era olhar de criança num corpo de velho. Foi quando de óculos escuros e desconcertada quis olhar mais fixamente, já não estava lendo e minha parada se aproximava, mas fiquei pensativa sobre como há poucas pessoas simples ultimamente, incluindo a mim que de tão complicada tenho insônia, dor de cabeça e descontentamento aparente.

Ele nada disso tinha, pelos anos ou pela filosofia, acho que na verdade, nada disso importava. Ele estava feliz, foi gentil, simples e isso bastava.

Quando me levantei para ir embora olhei para ele novamente e num aceno de mão, como os que damos aos amigos quando vamos embora, disse um “tchau”, expressei um sorriso sincero ao que ele correspondeu.

Ele, a Dona Simplicidade e uma tal de felicidade que encontrei de repente.