Dia 205 - "Somewhere Over the Rainbow"

Nesta semana li uma crônica da Danusa Leão na revista Claudia que falava da necessidade de se ter um ‘quintal’. Não, nenhuma ligação com Art & Decor. Era a simples constatação de que há tesouros em nossas vidas que nos esquecemos olhando sempre para o futuro e entorpecidos pelo presente. Ela nos levou numa viagem ao ‘quintal’ do seu passado, para um lugar onde poderíamos correr, pisar na terra, roubar manga da árvore que fica no quintal do vizinho, provar da goiaba que tem bichinho... rs... Uma delícia! Que por coincidência, ou não, me fez lembrar do quintal da minha avó, me fez retornar a infância e lembrar dos meus tesouros.

Sou de uma família de classe baixa, passamos todos por dificuldades, e ainda assim fomos felizardos pois tivemos acesso a educação, com bons pais (trabalhadores e honestos), enfim, gente que se esforçou para direcionar os filhos da melhor forma e proporcioná-los melhores chances diante da vida. E conseguiram. Nossas riquezas vão muito além do que conseguimos adquirir com nosso cursos superiores, nossas casas atuais, nossa condição financeira, nossa riqueza transcende nossa própria ignorância e arrogância, transcende nosso próprio esquecimento. Esquecemos nosso passado e nos focamos cada vez mais no ‘presente’ e ‘futuro’, mas somos nossas lembranças, provas de nosso trajeto nesta terra, origem de nossa personalidade e muitas vezes fator crucial em nossa compreensão/visão de presente e futuro.

Mas tudo isso está complexo demais... Hoje quero falar do quintal, similar ao da Danusa, mas o da casa da minha avó. Quero saborear a manga do pé do vizinho, privilégio até pouco tempo quando os bombeiros enfim cortaram a árvore pois ela poderia cair sobre as casas ao redor. O engraçado é que ela estava ali muito antes daquelas casas. Quero sentar-me a sombra das castanheira gigante, brincar com minha prima embaixo do pé de graxa (brincávamos com as flores e de casinha), quero sentar-me no portão, jogar queimada na rua, sujar meus pés com aquela terra vermelha batida, esconde-esconde dentro da casa da minha avó, comer ‘mentira’, cocada, pão caseiro, quero admirar o cacau que crescia (eu nunca comia, mas achava lindo os pequeninos crescendo)... quero lá estar, colocar tudo no seu lugar, antes das grandes construções (o prédio e a nossa ‘verdade’).

Havia também o ‘barraco’ de madeira, todos moramos lá em algum momento da vida, a casa que hoje só possui dois cômodos e serve de depósito para todos os livros que não lemos mais, as partes de cama que um dia usamos, a prancheta velha que já utilizei para trabalhar, a casa que ainda suporta todas as recordações que esquecemos, banalizamos ou fazemos questão de não recordar. Hoje ainda sonho que estou naquela casa. No lugar da cozinha construíram um fogão a lenha que, de vez em quando, utilizamos para encontros, churrasco ou uma conversa a tardinha.

Minha avó ainda cultiva suas plantinhas, acorda quase de madrugada, limpa a casa, faz café pra um batalhão (mas lá só mora ela), cuida de tudo como se o tempo não tivesse passado, ou poderia dizer como se o passado estivesse presente? Minha avó nunca foi uma ‘avózinha’, daquelas que fazem bolos e doces para os netinhos, pelo contrário, sempre foi uma mulher forte, de pegar no pesado. Já em sua tenra mocidade colhia café, mas a vida a fez casar com um comerciante e não tardou mudou-se para a cidade grande. Mas não negou o seu passado e trouxe consigo o pouco da tradição italiana que minha bisa ensinou a ela. E assim, pudemos conhecer nossas origens, compreender desde cedo que a vida não é simples e nem fácil, é vida e tem que ser respeitada.

Hoje moram no mesmo quintal: Minha avó na casa térrea, minha tia/madrinha no segundo andar (junto com seu marido e dois filhos de três, pois a filha casou-se, e a neta que fica mais por lá do que em qualquer outro lugar), minha outra tia mora no terceiro andar (com o marido e os dois filhos) e um tio nos fundos (entre o barraco de dois cômodos e o prédio) com sua esposa.

Volta e meia estamos lá, eu e minha mãe.

É impossível pensar no desaparecimento daquele lugar, do quintal da minha avó, meu país de OZ (meu tesouro não mais secreto), e de todas as pessoas que lá viveram e ainda vivem, e eu torno-me uma Dorothy inversa que bate sempre seus sapatinhos vermelhos mas, não para sair e sim, para lá voltar.

Preciso ir... vou brincar no monte de brita da construção com meus primos, ali perto das plantas e das madeiras arrumadas, sim, o pessoal tá descendo de carrinho de rolimã na rua, vovó tá reclamando rs... mas daqui a pouco ela vai chamar porque tem ‘mentira’ quentinha e café bem doce... e a noite vamos todos sentar para conversar e escutar os ‘causos’ da roça...


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