Dia 362 - DeterminAção

Igual a muitos que tive ao longo da minha vida, onde eu procurava algo e acordava sem nunca encontrar.

Eu tive um sonho...
Procurava uma casa, uma dentre tantas que avistei, havia algumas no alto, outras no baixo, algumas agrupadas, pequenas, grandes, tortas, coloridas e acinzentadas...
Cinza como minha visão, que oscilava entre o turvo e a nitidez...
Neste sonho, havia muitas casas, mas nenhum lar.
Todas estavam vazias, não desarrumadas, vazias. E eu estava lá... Sozinha.
E logo ali, lá, havia o mar...
Com a onda que se erguia, para engolir a tudo e a mim.

Em toda minha vida quis fugir deste mar, desta onda gigante.

Eu tive um sonho...
Diferentes de todos que já sonhei, pois neste encontrei uma casa, onde a luz entrava pela janela e eu... Estava lá, mas...
Não me sentia sozinha.
A luz da manhã beijava o chão e a tudo refletia...
Em direção àquela janela eu fui e o mar também estava lá, no meu horizonte...
Tão alto, mas tão alto ele se erguia, a formar uma onda que sinalizava quebrar-se, exatamente, sobre minha casa vazia, mas...
Ele só se erguia e não descia...
Imponente, subjugando minha forma frágil, ele me submetia, a vontade de algo muito maior do que eu... E muito maior do que nós, eu sentia...
Não era onda ‘bravia’, era uma parede de águas escura e fria, que ao quebrar-se com tudo acabaria.

Eu tive um sonho...
E neste sonho, neste único sonho, que se repetiu em minha vida tantas vezes, o medo não me perseguia,
Desta vez, eu não correria em direção oposta a ameça que sofria...
Calmamente, saí da única casa que me acolhia, mas não me protegia...
Quando fora da casa me encontrei minha mão direita não estava mais vazia...
Ele estava lá comigo, muito menor que minha estatura, pequenas mãos frágeis e macias...
Eu olhei para o lado e só conseguia ver o reflexo dourado do sol em seus cabelos lisos e castanhos...
E ele olhava em direção ao mar que se erguia...
Ele não estava com medo. E eu?
Não estava sozinha.

Saí pela única porta que havia na casa, ela só tinha além disso uma janela.
Olhei para cima, para tentar entender, quem sabe correr, o tamanho da barreira que se ergueu diante de mim e...
Quase no limite do meu esforço, com dificuldade, avistei sua borda esbranquiçada e espumosa, um barreira com se seguia por quilômetros sem poder precisar o seu fim.

Estava esperando...
Minha escolha, em seu silêncio profundo e esverdeado.
Que segredos haveria através daquele espelhado?
O que, de fato, se finalizaria?

Eu tive um sonho...
Um lugar iluminado, uma casa iluminada, meu filho e uma onda.
Como uma barreira ela aguardava mais do que desafiava...
Seu destino não era quebrar-se.
Meu destino era ‘quebrar-me’ nela.

Eu tive um sonho...
E, pela primeira vez, eu o compreendi ainda sonhando.
Pela primeira vez eu não quis fugir, mas, seguir...
Respirei fundo e dei mais alguns passos.
Eu e o meu menino...
Decidida a ‘quebrar-me’ nela,
Respirei fundo e em passos calmos segui em sua direção, comecei a sentir medo, mas, ele não me impedia...
Fugir não iria adiantar, não mais queria.
E aquela imensidão esverdeada, aquela parede espelhada se abriu como cortinas finas e delicadas, sem derramar uma única gota d’água...
Ali, diante de mim, a passos de quebrar-me...
Pares de mãos gigantes.
Vários, em toda a extensão da onda até onde minha vista podia alcançar...

E eu compreendi.
E acho que você também compreendeu.

Eu tive um sonho...
E não acordei neste dia, despertei!

E desde então, vejo aquelas mãos em todo lugar...

Desde então nasceu em mim uma clareza que antes não existia...
Os passos que dei e que não dei, as escolhas que fiz e que não fiz,
A pequena mão que unida a minha não me deixou sozinha e tudo que ele representa para mim.
As mãos que estendi e as que nunca agarrei...

Eu sei que a onda sempre estará lá...
Mas eu não me sinto mais sozinha, nunca estive, só não cheguei próximo o bastante para perceber...
Eu sei que não era um sonho.
Assim como aquela pequena mão que me sustentava a razão, que sustenta meu corpo na exaustão...
Agora eu compreendo...
A necessidade de decidir e sustentar,
De desconstruir para construir...
Para ser um outro alguém, melhor.

Ao Quebrar-me em meus medos.


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