Dia 196 - Série Tormentas: MEDO. O tempo que não volta mais.

Perdemos mais pelo medo do que pelas escolhas. Sim, eu tenho medo. Todos temos medo, mas as vezes temos um medo maior de determinada coisa ou situação, algo que nos trava, que nos tira a alegria, que aumenta nossa ansiedade. Teremos medo a vida toda, até por uma questão de sobrevivência. Não posso sair por aí sem medo de absolutamente nada.

Tenho medo do que irei dizer aqui pois tenho medo de vosso julgamento. Tenho medo de que as pessoas que citarei, mesmo que não use nomes, se identifiquem e fiquem chateadas comigo. Desculpe, tenho medo que isso aconteça mas preciso dizer. Não para redimir a minha culpa, consequente de escolhas erradas, mas porque preciso desabafar. Retirar de mim. Dar a cara a vida. Encarar.

Entretando alerto, a quem queira assim julgar ou criar desafeto, que você também tem medo, de errar.

O medo de errar começou quando eu quis acertar tudo. Queria ser, ao contrário dos exemplos a minha frente, diferente. Sim, porém melhor. Perfeita. Seria eu mais esperta, inteligente, esforçada... não era prepotência, eu queria ser diferente dos meus pais, da minha família, fazer das minhas oportunidades, únicas e criar uma história bem mais feliz.

Pois bem, aos 16 anos decidi ser diferente pela primeira vez. Decidi que tinha chegado a hora, que era adulta, que tomaria uma decisão que mudaria minha história e mudou, completamente. Queria me tornar uma mulher e me tornei, escolhi errado, errei no passo, tive minha primeira e mais marcante decepção, fui abandonada e pronto, lá estava a mulher que eu tanto ansiava. Totalmente inexperiente e só. Foi quando o medo me tomou completamente. Minha primeira perda. A da minha segurança.

Como a decisão que tinha tomado, apesar de hoje achá-la prematura, foi totalmente consciente, arquei com meu mal passo e segui em frente. Torcendo para que o futuro fosse um pouco mais doce. E foi...

O medo de ficar só novamente me levou a cometer erros seguidos, não bastava eu administrar situações/relacionamentos insustentáveis até não poder me conter, eu tinha que me sentir menor, neste momento, além do medo de estar só eu havia descoberto a baixa auto-estima. No meu caso creio que a baixa auto-estima levava ao medo de ficar só. Andavam de mãos dadas.

Hoje sinto como se boa parte da minha vida estivesse esquecida. Não consigo me recordar de datas exatas, somente situações, das quais muitas não me recordo com exatidão. Sabe por quê? Devo ter criado um bloqueio por medo de sofrer. Porém não é nada crônico, nos últimos tempos venho me recordando de muitas coisas, algumas não tão agradáveis, porém, fazem parte também.

Eu nunca quis desapontar, por isso disse muito SIM, quando queria dizer NÃO. Por isso me submeti a muitas situações que me desvalorizaram, me entristeceram e me deixaram mais sensível, vulnerável a depressão, muitas passei para ser aceita, para ser amada, para criar uma ilusão de que aquilo que me machucava não era nada, mas era.

E o medo levava minha razão. Eu poderia ter evitado situações constrangedores, poderia não ter magoado algumas pessoas e poderia ter me maltratado menos. Poderia ter colocado meu ponto de vista com mais afinco, poderia ter resolvido cedo o que resolvi tarde, poderia sim, mas não fiz por medo de ser má, uma pessoa indesejada ou perder a perfeição tão sonhada. Quis ser vítima mas tornei-me uma vilã.

Lembro-me que assistia a filmes de terror com as mãos nos olhos ou embaixo de algum lençol, numa tentativa de minimizar o susto que estava por vir ou reduzir o impacto da cena sangrenta demais para meu gosto. Mas entre dedos ou por baixo do pano eu olhava e conseguia me assustar. Não adiantava nada. Um tempo atrás fui ao cinema acompanhar uma amiga num filme de terror. Advinhem? Assisti metáde do filme através do meu casaco. Ilário!! Mas é medo de sonhar com o bicho papão... IoI...

Assim como não adiantou o medo. Entre 'dedos' e 'panos quentes' o tempo passou, sofri de qualquer forma, vivi aquelas horas que não voltam mais e construi minha história, longe dos contos de fada.

Totalmente consciente de que a vida não é feita só de flores e de amores, totalmente consciente de que apesar dos meus erros também acertei muitas vezes e totalmente consciente da pessoa que me tornei e hoje sou, admito, preciso do medo tanto quanto da coragem. Assim como preciso calar certas coisas e dizer muitas outras, não por medo ou vaidade, mas para encarar no espelho a minha própria face, sem dedos ou panos, sem o medo, a verdade.
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