Dia 195 - Série Tormentas: SOLIDÃO. Uma 'breve' história.

Uma segunda-feira de sol, achava melhor vestir um jeans, uma blusa estampada de cores fortes e toques de rosa, quem sabe também seu dia não iria florir. Despediu-se dos seus como de costume. Como de costume entrou no elevador do prédio onde trabalhava e deu um 'Bom dia' sem muito sorrir, mas sempre educada. Pequena ela, apesar das primaveras passadas ainda aparentava menos idade do que realmente seu documento registrava. Chegou no consultório onde trabalhava como recepcionista e inicou suas atividades, nada anormal, a não ser por aquele buraco que crescia em si em silêncio mas latente, milhões de coisas em seus pensamentos, problemas, frustrações e desalentos, tudo era turvo, apesar do dia de sol a convidá-la a sair. Confirmou os horários com os pacientes, mas não se concentrou. Pensava que a pessoa que a cumprimentou no elevador não sabia de nada. Não sabia da sua vida, da sua dor e também pouco se incomodava. Era a vida dela não a sua que importava. Pensou que talvez sua filha, agora mocinha, também dela não sentiria falta. Nem seu esposo, quem sabe uma outra a ele mais agradava. Apenas ali ela fazia alguma diferença, mesmo assim, pensava: Será? Qualquer uma outra em meu lugar daria conta do recado. Por que se importava?

Ela, assim como Macabéa (A Hora da Estrela de Clarice Lispector) se via como coisa e como coisa se acostumava, já não sentia, nem importava. Porém, neste dia, na segunda que de tão quente tornou-se totalmente fria e ao contrário de Macabéa ela se questionava e sentia. Sofria com o nada que a todo o seu corpo entorpecia.

Mecanicamente saiu para fazer as atividades que sua rotina exigia mas algo em si já estava diferente. Quando olhou o céu não o percebeu. Quando o vento levantou seus longos cabelos foi indiferente. A comida que a alimentou passou sem afetar seu paladar. Sua visão se turvou e nada mais escutou. Era o nada que a dominava. Uma solidão profunda somada a perda do sentido de sua própria vida.

Uma solidão jamais imaginada, sua hora, sua estrela totalmente apagada. Uma coisa. Diante de si uma saída. Quem se importava? Nem ela mesma se importava, nem sentia, nem falava, era coisa e deu a si a característica de inanimada. Mas era estrela, mesmo que apagada, talvez, pela primeira vez seria notada.

E quem dissesse que era covarde dava de ombros, não escutaria tais palavras. Nem a quem se perguntasse o motivo ela não responderia. O motivo já não era motivo, era o silência da sua pequena jornada.

Começou quando, pela primeira vez no dia, sentiu o vento lhe atravessar o corpo, mas já estava no meio do caminho, devia estar passando do sexto pro quinto, ou do quinto pro quarto andar... Que importa?!

O primeiro impacto do seu ato foi contra um telhado de vidro temperado, um grande estrondo e estilhaços para todos os lados. Nada sentiu. A coisa não sente, se quebra. A coisa toda morre. Não entende? Ela tinha morrido já. Quando ainda de salto subiu no parapeito da janela, já ali havia morrido a Maria que existia nela. Sim, Maria era o nome dela. Mulher de 37 anos, miuda, cabelos longos, ainda jovem porém já morta, mesmo antes da própria morte lhe bater a porta, ou foi ela a porta da morte lhe bater na cara, provar que se ela podia decidir a hora.

Pobre Maria! Seu corpo em frente a garagem do prédio jazia, ainda com pouca vida, todos a olhar admiravam-se com sua ousadia. Não se podia negar, coragem ou covardia, quem olhava se admirava da pobre.

O que será que aconteceu??
Por quê??
Que pena??
Uma covarde!!!
Minha nossa coitadinha!!!
Será tarde??

Quanta 'gente boa' lamentava, outras tantas a julgava, mas de fato... Quem era Maria?

Uma voz:
- Acho que ela trabalhava no sétimo andar. Alguém a conhecia?

Maria. Olhar fixo e apagado, a todos fitava sem nenhuma admiração, totalmente indiferente, vazia, como coisa jazia, mas era estrela no chão. Como Macabéa naquele instante Maria 'é'. Nasce para sua solidão. 

Seu corpo não suportou as feridas e foi a óbito assim que chegou ao hospital.

Este fato ocorreu ontem (08/02/10) no prédio onde trabalho. Eu não conheci Maria, nunca a encontrei no elevador e nem lhe desejei 'Bom dia'. Em sua vida fui apenas mais uma espectadora daquele momento.

Hoje todos voltamos a rotina. Daqui uma semana quase ninguém se lembrará de Maria. Daqui a um mês talvez alguém comente alguma vez. Mas, daqui a um tempo Maria será lembrança fria.

De tudo que ouvi e vi quero aqui registrar...

Conclui que não se compreende a solidão do outro. Mas se não for útil, que não seja fútil ao julgar.

Lamento por sua tristeza Maria! Que Deus a abençoe e não se sinta sozinha onde está!

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