Dia 121 - A moça da calçada

Sentia a algum tempo um aperto no peito e uma pergunta martelando seus pensamentos:
- Por que tudo isso está acontecendo? - pensou ao olhar para o tempo.
Fez uma retrospectiva dos últimos acontecimentos e lembrou-se dos seus atos e dos momentos, definiu que no meio deste turbilhão de sensações muitas eram boas e muitas foram como um açoite em seus sentimentos.

Em sua pele haviam algumas marcas, em seus cabelos também lá estavam, algumas delas eram cicatrizes que em noites frias sentia lhe causar dor e, as vezes, até agonia. Mas apaziguava com banho quente e um sorriso de esperança, afinal amanhã era sempre um novo dia, então adormecia.

Na noite anterior sofrera, ao sentir no peito a perda do que lhe era querido, mas também por ter atravessado momentos que não lhe pertenciam. Sabia que cruzara histórias de outras pessoas, mas não era assim que sentia, porque não procurava causar sofrimento, desconforto ou tormento, tudo, tudo que queria era um dia ter o que na infância não foi possível compreender. Queria sua família...

E a noite tornou-se longa e vazia, dentro do ônibus, ao retornar para casa sentiu no peito um cansaço que a muito não sentia, sentiu-se triste, pensou, lamentou e se conformou, algo que a aborrecia, já que dentro de si sempre foi tormenta, e não maré calma em noite de lua cheia.

Tudo isso pensava ao atravessar a ponte que faltava para chegar ao seu trabalho, olhava o mar, como na noite anterior, mas desta vez não tinha o mesmo brilho, tinha dissabor.

E envolvida em seu mundo pequeno sentiu um toque em seu ombro, puxando-lhe de volta a claridade, teve dificuldade para elucidar o que lhe perguntaram, mas vez um esforço e retornou a seu desgosto.

De repente diante de si pregado literalmente num cartaz Jesus crucificado, nunca gostou dessa apresentação, pois a que gostava vinha da infância, de uma bíblia de capa marrom que sua mãe possuía, ele sorrindo com uma ovelha nos braços sentado na grama verde de um grande pasto, queria muito ser aquela ovelha, e aquele sorriso para sempre a marcou - pensava, e um sorriso lhe veio aos lábios, mas rapidamente se apagou.

De longe podiasse ver seus pensamentos, até sua roupa combinava em cor, lembrou-se novamente da noite anterior, e de tudo que desejou e sonhou, e do medo, e de quanto lutou, travou uma batalha que não ganhara, mas nunca foi soldado desertor, enchia o peito, levantava o queixo e de espada na mão se entregava, antes a dor que o nada, porque ela nunca lhe deixava esquecer que estava viva.

Mas ela queria mais, um cais para descansar, todos os dias passava a sonhar, todas as tardes abraçava a saudade e se entregava ao mar, naquelas tardes até o luar aparecia, voava, pique-niques planejava, doces divinos preparava, e sua alma se acalentava, era leve e doce, um lugar para repousar seus "ais", compartilhava o que melhor de si encontrava, e ali queria estar a sentir o que tanto procurava.

Mas o que é pleno nesta vida? O momento que por ter este nome quando chega já está de partida? - pensava na noite anterior ao atravessar a última ponte que unia a sua terra ao mar. O silêncio por fim chegou, já era tarde e ainda estava na estrada, neste instante se permitiu e descansou e eis que uma lágrima rolou, e não se importou com mais nada. Afinal, era apenas mais uma moça dentre tantas, como aquelas com as quais cruzamos ao passar numa calçada.
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